Os Dez Mandamentos do Chimarrão

Conta a lenda, que os soldados espanhóis ao chegarem à foz do Rio Paraguay, em 1536, ficaram muito impressionados com a fertilidade da terra às margens do rio, fundando assim a primeira cidade da América Latina: Assunción de Paraguay. Devido às saudades de seus familiares, os desbravadores eram famosos pelos seus porres. A fim de curar suas bebedeiras, os soldados espanhóis começaram a tomar a erva-mate por notar que ela aliviava a ressaca. Foi assim, que a erva-mate chegou ao Rio Grande do Sul, transportada na garupa dos guerreiros daquela época. Desde então, o chimarrão se tornou um dos principais símbolos do Rio Grande do Sul.

O chimarrão é servido em cuia e feito com erva-mate, sobre a qual se derrama água quente. Diz-se que gaúcho que é macho gosta do mate bem amargo, mas há quem misture açúcar. Também é muito comum colocar saquinhos de chá na erva, como cidreira ou hortelã, para adicionar um sabor especial. A bebida possui propriedades digestivas e estimulantes, mas não se recomenda tomá-lo antes do café da manhã, para evitar a gastrite.

Não peças açúcar no mate

Mas de jeito nenhum. O gaúcho aprende desde piazito que e por que o chimarrão se chama também mate amargo ou, mais intimamente, amargo apenas. Mas, se tu és dos que vêm de outros pagos, mesmo sabendo poderás achar que é amargo demais e cometer o maior sacrilégio: pedir açúcar. Pode-se pôr na água ervas exóticas, chá, cana, frutas, etc. Mas jamais açúcar.
O gaúcho pode ter todos os defeitos do mundo, mas não merece ouvir um pedido desses. Portanto, Tchê, se o chimarrão te parece amargo demais, não aguenta… pede um refri com canudinho. Tu vais te sentir bem melhor.

Não digas que o chimarrão é anti-higiênico

Tu podes achar que é anti-higiênico pôr a boca onde todo mundo põe. Mas tu não tens o direito de proferir tamanha blasfêmia em se tratando do chimarrão. Repito: pede uma refri com canudinho. Cuia, bomba, mate, origem, tradição é coisa nossa. O mundo se entre olha ao passar a cuia. Mais que um mate uma irmandade em confraternização.

Não digas que o mate está quente demais

Se todos estão chimarreando sem reclamar da temperatura da água, é porque ela é perfeitamente suportável por pessoas normais. Se tu não és uma pessoa normal, assume e não te fresqueies. Se, porém, te queres matear acompanhado, na tua temperatura, faze o seguinte: vai para o Paraguai. Tu vais adorar o chimarrão de lá.

Não deixes um mate pela metade

Apesar da grande semelhança que existe entre o chimarrão e o cachimbo da paz, há diferenças fundamentais. Com o cachimbo da paz, cada um dá uma tragada e passa-o adiante. Já o chimarrão, não. Tu deves tomar toda a água servida, até ouvir o ronco de cuia vazia. A propósito, leia logo o mandamento seguinte.

Não te envergonhes do ronco no fim do mate

papa

“Que a Paz, o Amor e um bom Chimarrão virem rotina!”

Se, ao acabar o mate, sem querer fizeres a bomba “roncar”, não te envergonhes. Está tudo bem, ninguém vai te achar mal-educado. Este negócio de chupar sem fazer barulho vale para refri com canudinho, que tu podes até tomar com o dedinho levantado.

Não mexas na bomba

A bomba do chimarrão pode muito bem entupir, seja por culpa dela mesma, da erva ou de quem preparou o mate. Se isso acontecer, tens todo o direito de reclamar. Mas, por favor, não mexas na bomba. Fale com quem lhe ofereceu o mate ou com quem lhe passou a cuia.
Mas não mexas na bomba, não mexas na bomba e, sobretudo, não mexas na bomba.

Não alteres a ordem em que o mate é servido

Roda de chimarrão funciona como cavalo de leiteiro. A cuia passa de mão em mão, sempre na mesma ordem. Para entrar na roda, qualquer hora serve, mas, depois de entrar, espera sempre tua vez e não queiras favorecer ninguém, mesmo que seja a mais prendada prenda do Estado.

Não “durmas” com a cuia na mão

Tomar mate solito é um excelente meio de meditar sobre as coisas da vida.
Tu mateias sem pressa, matutando, recordando…
E, às vezes, te surpreende até imaginando que a cuia não é cuia, mas o quente seio moreno daquela chinoca faceira que apareceu no baile do Gaudêncio…
Agora, tomar chimarrão numa roda é mui diferente. O fundamental não é meditar e sim integrar-se à roda. Numa roda de chimarrão, tu falas, discutes, ri, xingas, enfim, tu participas de uma comunidade em confraternização. Só que esta tua participação não pode ser levada ao extremo de te fazer esquecer-se da cuia que está em tua mão. Cuia não é microfone. Fala o quanto quiseres, mas não se esqueças de tomar teu mate, alguém dirá “Conheço um … que morreu com a Cuia na mão.

Não condenes o dono da casa por tomar o primeiro mate

Se tu julgas o dono da casa um grosso por preparar o chimarrão e tomar ele próprio o primeiro, saibas que grosso é tu. O pior mate é o primeiro e quem o toma está te prestando um favor.

Nunca digas que o chimarrão dá câncer na garganta

Pode até dar. Mas não vai ser tu, que pela primeira vez pega na cuia, que irás dizer, com ar de entendido, que chimarrão dá câncer. Se aceitaste o mate que te ofereceram, toma e esquece o resto, uma vida vivida com o chimarrão valeu a pena. Se não pede um refri com canudinho e te olha no espelho.