Ética e ascese

O leitor já ouviu falar de Jesus Cristo, que fez kênosis para que nós subíssemos; desceu para que subamos.(Jo 3,13) E deve estar lembrado daqueles mineiros soterrados por quase dois meses no Chile. Alguém desceu até o escuro onde estavam para que eles subissem para a luz. Por conta própria não conseguiriam.

Também já ouviu falar de João Batista que afirmou ser necessário que ele aparecesse menos para que Jesus aparecesse mais. (Jo ,30) E já deve ter ouvido de Jesus que quem quisesse tornar-se ser discípulo seu precisaria levar a própria cruz e a cruz do outros. ( Mt 10,38; Mt 25,21-46). Tudo isto é ascese.

Ascese deriva da palavra latina ascendere: subir. Supõe alteridade, projeto mais elevado de vida. Vai além do aqui-agora! Fala de transcendência. Trata-se de possuir a chave das grades que nos cercam, saber navegar por entre os escolhos, manter-se no controle quando as ondas ameaçam levar a melhor, dominar os próprios sentimentos e canalizar-se. Se alguém conseguir isto, estará vivendo vida de ascese. Filósofos conseguiram. Homens e mulheres das mais diversas religiões, a maioria dos quais nunca abriu um livro de filosofia, também conseguiram.

Há os radicais e há os moderados. Não é verdade que todo asceta deva ser magro, esquelético, doentio e passar de jejum para jejum. Esta é a caricatura. O próprio Jesus, que viveu e pregou ascese tinha o perfil de homem comum, que até ia a jantares. Mas não tinha nada de seu (Mt 8,20), era despojado, nem por isso viveu de jejum em jejum ou fez seus discípulos passarem fome. Usou, e muito bem, do pouco e do suficiente e condenou os excessos.

Asceta é quem descobriu o suficiente e o bastante; não persegue louvores nem riquezas; do pouco faz muito. Comparado ao dias de hoje é agricultor que não desperdiça água, aproveita-a gota a gota. Jesus o definiria como o sujeito que sabe ser fiel no pouco!

E o seu senhor lhe disse: Bem está, servo bom e fiel. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor. (Mt 25, 21)

Autores e atores profundos deixaram sua marca nas suas religiões e igrejas pelo que disseram e pelo modo como passaram pelos outros. Desprendidos e comprometidos, eles viveram para os outros e descobriram a mística do conviver: com Deus, consigo e com o outro!

O asceta sabe o que deixa e sabe o que procura. Destrinche os trocadilhos:

Ele quer o mundo que “o quer”, mas não quer tudo o que o mundo quer. Sabe que o mundo não quer tudo o que ele quer, mas quer para o mundo o que o mundo parece não querer. Em muitas situações ele quer o mundo que “não o quer” e certamente não quer o que o mundo quer. Há o asceta que vive em conflito com o mundo. Há o outro que sabe discordar, sem ser oito ou oitenta, até porque todo aquele que posa de oito ou oitenta, com o tempo não acaba nem mesmo no oito!

O bom asceta sabe que não vence o mundo, mas obtém vitórias que valem a pena, quando vence a si mesmo. Ao vencer-se, mais conquista do que vence o mundo. O falso asceta fala em derrotar os outros. Seu discurso é o do competidor que chuta e derruba o adversário. O bom asceta fala em subir para levar consigo os que desejam algo mais da vida.

Há ascetas que olham a laranja e renunciam a ela por alguma razão que nem sempre explicam. Há os que colhem a laranja e se contentam com dois ou três gomos; os demais pertencem aos outros. São maneiras de possuir-se e de subir. Enveredemos reflexão a dentro!

AUTOR: Pe. Zezinho, SCJ